No ano passado tive oportunidade de realizar várias entrevistas com diversas empresas. Acontece que normalmente estás demasiado preocupado com a entrevista em si (o que é que vais dizer; como é que vais comprimir o trabalho dos últimos anos em 15 minutos; a entrevista é por Skype e a tua ligação de Internet não é suficientemente estável; esperas chegar a horas embora o trânsito seja sempre uma incógnita; … ) que te esqueces que uma entrevista é o início de uma negociação - e uma negociação tem sempre duas partes.

Neste artigo aponto (o que me parecem ser) as questões pertinentes que deves fazer nas entrevistas até ao momento em que assinas um contrato de trabalho. Não vais encontrar aqui a forma de estar numa entrevista nem os dos e don’t dos. Para isso há artigos suficientes por essa Internet fora e, convenhamos (porque também já fiz entrevistas), há coisas que simplesmente deves fazer (dica: cumprimentar os entrevistadores) e outras que não deves fazer (dica: deixar o smartphone ligado).

Antes de passar às questões, devo dizer que este artigo se aplica principalmente às pessoas ligadas às TI, simplesmente porque até ao momento (e, previsivelmente, durante mais alguns anos) a procura excede a oferta e isso é um trunfo do qual deves tirar partido.

Convém também perceber que, mediante a tua condição atual, poderás ter mais ou menos poder negocial. Aplicar-se-á uma das seguintes opções:

  1. Estás ativamente à procura de emprego (porque estás desempregado/a ou porque estás insatisfeito/a com o teu emprego atual)
  2. Estás confortável com a tua condição, mas são-te oferecidas propostas de emprego por outras empresas

Independentemente da tua situação, nunca te esqueças de questionar sobre:

  1. Valor salarial
  2. Tipo de contrato
  3. Formação
  4. Progressão de carreira e política salarial
  5. Forma de pagamento do subsídio de alimentação
  6. Outros benefícios
  7. Trabalho remoto
  8. Proposta escrita

1. Valor salarial

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Este é um assunto que certamente irá entrar em algum momento da entrevista, provavelmente pelo próprio entrevistador. No entanto, se a pessoa que te entrevista não te questiona sobre este assunto, acho que te deves manifestar, já que vai ter um grande impacto na tua decisão final

Para indicares um valor salarial, convém teres noção dos valores que são pagos a pessoas com perfis semelhantes ao teu. Sim, eu sei, ninguém gosta de falar sobre quanto recebe e é complicado descobrires qual a média de vencimento do teu perfil, também porque este valor tem muito a ver com as diferenças entre as empresas e locais. Por exemplo, existem programadores C# seniores a receber 900€ líquidos e outros a receber 1500€ líquidos (exatamente pelo mesmo trabalho). Tudo depende do tipo de empresa (uma grande empresa, normalmente, paga mais por recursos com experiência) e do local (é normal ganhares mais em Lisboa do que em Portalegre - e a procura vs oferta também é diferente).

Só tu consegues perceber quanto é que “vales”, mediante a tua experiência e as tuas capacidades. Ainda assim, é preferível acrescentares ao valor que julgas ser o justo cerca de 100€ líquidos, sendo que ganhas alguma margem de manobra negocial durante o processo de recrutamento. Neste caso, lembra-te de referir que o valor é negociável, para que não sejas rejeitado à partida.

Sobre este ponto acho importante registar as seguintes notas:

  • Lembra-te que 1000 € líquidos - já contando com subsídio de alimentação - raramente (para não dizer “nunca”) equivalem a 1250 € brutos. Grande parte das empresas paga uma parte do valor através de Ajudas de Custo ou Despesas de Deslocação / Representação. Não está aqui em causa se este procedimento é correto ou não - é uma realidade e está sensivelmente dentro dos limites da lei. O que tens de perceber, e perguntar se necessário, é qual o valor bruto salarial e qual o valor líquido remanescente, pago através de Ajudas de Custo ou Despesas de Deslocação / Representação.

    Lembra-te que tudo é indexado ao salário bruto: subsídio de desemprego, subsídio de invalidez, reforma (se ainda existir nessa altura), etc. Deves ter isto em conta na fase em que estejas a negociar o valor salarial.

  • Não te esqueças que o dinheiro não vale nada se não tiveres tempo para o gastar, e há coisas que só se fazem - ou são mais fáceis de fazer - em determinadas alturas da vida. E o dinheiro também não vale tudo, ganhas muito mais dinheiro ao ir para o estrangeiro mas, provavelmente, deixas de ter sol e a praia ali ao lado - para não dizer que uma Super Bock passa a custar 3,5 €…

2. Tipo de contrato

Questiona sempre o tipo de contrato que te será oferecido. É mais que normal que te ofereçam um contrato a termo certo (por 6 meses ou um ano), e eu também o faria se estivesse a contratar, mas podes tentar negociar um contrato sem termo que te dá mais garantias (é um pouco mais difícil despedirem-te).

3. Formação

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Em relação à formação, devo dizer que é sempre útil conheceres a legislação laboral. Por lei todas as entidades empregadoras estão obrigadas a dar 35 horas anuais de formação a colaboradores efetivos (ver Artigo 131 do Código do Trabalho).

No entanto é uma prática comum não existir formação ou ser formação online sobre Gestão do Tempo (claro que se estás no Facebook não vais ser tão produtivo) e sobre Higiene e Segurança no Trabalho (estás a ler este artigo sentado numa posição correta?).

Convém, portanto, distinguir o que é formação presencial e formação online. Se te oferecerem formação online será mais difícil evoluíres as tuas competências técnicas, por dois motivos:

  • Normalmente essa formação existe para a empresa cumprir a lei e dificilmente é a formação técnica que precisas
  • Mesmo que seja formação técnica, julgo que concordamos que é melhor aprenderes com um formador presencial do que com um sistema pré-definido para todos

É claro que se o local de trabalho for numa grande cidade (Lisboa ou Porto), e for uma empresa minimamente competente, é mais provável que a formação seja presencial e que obtenhas vantagens a longo prazo (por exemplo, certificações).

Em última análise, depende daquilo que procuras e da cultura da empresa (mais sobre a cultura da empresa no final do artigo). Consegues viver sem formação e evoluíres tecnicamente por ti? A empresa aceita sugestões de formação (e tu sabes encontrar a formação que precisas)? Tudo tem os seus prós e contras e, no final, não ter formação até pode ser “menos mau” (a saber, Artigo 134º CT: “Cessando o contrato de trabalho, o trabalhador tem direito a receber a retribuição correspondente ao número mínimo anual de horas de formação que não lhe tenha sido proporcionado…”).

4. Progressão de carreira e política salarial

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O valor que te é oferecido nos primeiros 6 meses até pode ser baixo, mas vai aumentar no final desse período? Ou, pelo contrário, podes ter um vencimento líquido aceitável, mas não vais ter aumentos nos próximos 5 anos?

Se a empresa tiver um esquema de progressão de carreira é bom sinal, quer dizer que tiveram discernimento suficiente para perceber que os colaboradores querem crescer na empresa e dão valor a esses colaboradores. Ou seja, mesmo que comeces no patamar mais baixo vais ter oportunidade de subir na carreira. Existindo progressão de carreira, é importante que percebas como é que funciona essa progressão. É por antiguidade? É por avaliação da tua chefia?

Caso não exista um esquema de progressão de carreira nem de política salarial, é mais provável que seja uma empresa desorganizada e que tenhas de andar a “pedinchar” o teu justo aumento (considerando, claro, que és competente naquilo que fazes).

5. Forma de pagamento do subsídio de alimentação

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Esta pergunta pode parecer trivial e, no limite, estúpida. No entanto, se te oferecerem um valor liquido baixo podes não ter liquidez suficiente para as tuas despesas mensais e poderá nem te compensar receberes o subsídio com cartões Euroticket ou Ticket Restaurant.

Confesso que no passado cheguei a optar por receber o subsídio de alimentação por transferência em vez de Tickets (porque a empresa me permitiu, claro). Embora pagasse mais impostos, isso era compensado pela liquidez (quando falo em liquidez, falo no dinheiro que podes gastar em qualquer lugar).

Além disso, deves perceber que um cartão A-la-card não funciona da mesma forma que o cartão ou vales Ticket Restaurant. O primeiro pode ser usado em qualquer terminal ATM de empresas com CAE de restauração e os últimos só podem ser usados em estabelecimentos aderentes.

6. Outros benefícios

Obviamente, quanto mais benefícios tiveres, melhor. Pessoalmente questiono sempre se oferecem um Seguro de Saúde.

O seguro de saúde não deve ser confundido com um seguro de acidentes de trabalho - que é obrigatório para todos os colaboradores da empresa e cobre acidentes que ocorram no horário de trabalho, incluindo o percurso casa-trabalho e trabalho-casa. Se te for atribuído um seguro de saúde, dependendo do tipo de seguro, tens vantagens nas consultas em consultórios com acordos com essa seguradora (entre outras vantagens, pagas menos em consultas, operações e material).

Para além do seguro de saúde, podes questionar a existência de um outro leque de benefícios. Por exemplo:

  • Vais ter direito a algum telemóvel da empresa?
  • Podes comprar livros (técnicos) e apresentar a despesa à empresa?
  • A empresa paga a licença do teu IDE favorito?

Lembra-te que as empresas têm benefícios (deduções) fiscais na apresentação de certas despesas e, por isso, aceitam pagá-las.

7. Trabalho remoto

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Embora ainda não seja muito aplicado em Portugal, será certamente uma das mais-valias no futuro. É especialmente útil se não quiseres ir trabalhar para uma grande cidade ou se fores alocado a um projeto de alguns meses na cidade onde vives por parte de uma consultora.

Podes tentar negociar um trabalho remoto parcial, em que vais à empresa um ou dois dias por semana e os restantes dias ficas a trabalhar em casa. O trabalho remoto permite-te uma melhor qualidade de vida (não tens de lidar com o trânsito, por exemplo, nem tens de sair da cidade onde vives atualmente) e até pode ser uma vantagem para a empresa (desde logo não é necessário um posto de trabalho, físico, para ti).

Além do trabalho remoto, em especial nas entrevistas com consultoras, gosto de questionar a quantidade de colaboradores que a empresa tem fora de Lisboa e Porto. Caso estejas alocado num projeto fora da cidade da consultora, esta informação permite-te ter uma ideia dos locais para os quais podes ir no final desse projeto.

8. Proposta escrita

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Não é propriamente uma questão e nem sempre deve ser colocada na primeira entrevista. No entanto, e se a entrevista correr bem e achares que vais ser contratado, lembra-te de exigir uma proposta escrita, com todas as condições que foram discutidas durante o processo negocial.

Há que ter boa-fé no processo negocial mas é comum (mais do que deveria) seres confrontado com um contrato que não tem todas as condições ou tem condições que não foram discutidas, no momento em que te é apresentado para ser assinado.

Portanto o melhor é solicitar uma proposta com todas as condições discriminadas e preferencialmente assinada.

Quando fazes estas perguntas, além de ficares a conhecer as condições da empresa, ficas também a conhecer um pouco da cultura dessa empresa.

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É difícil definir o que é a “cultura” de uma empresa, mas julgo que o posso colocar em termos de valores e atitudes que a empresa tem. Por exemplo, existem eventos para promover Team Building? A empresa dá-te alguma flexibilidade no horário (quando a tua filha estiver doente, por exemplo)? A empresa tem uma organização vertical (mais convencional - tu tens um chefe, que tem um chefe) ou horizontal (onde existem pessoas ao mesmo nível com quem lidas todos os dias)? O ambiente da empresa é mais rígido (é preciso fazer uma requisição para teres um caderno) ou mais descontraído (existe uma mesa de ping-pong)?

Nunca subestimes a cultura da empresa, no final será essa cultura que te fará feliz ou infeliz dentro da empresa e é essa cultura que te faz ter prazer em ires para o trabalho às segundas-feiras. Ou pode ser essa cultura que te faz ficar sem vontade de saíres do sofá.

Para terminar, é importante dizer que não existe o trabalho perfeito. Não existe, nem sequer se trabalhares por conta própria. No entanto, enquanto a empresa está à procura do melhor recurso para ocupar a posição que têm disponível, tu também deves estar à procura da empresa onde te irás sentir melhor, portanto é uma questão de encontrares o equilíbrio entre os prós e os contras. E estas perguntas ajudam-te a apurar os prós e contras. Boa sorte.

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